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Eu o escuto chegar em casa às 5, 6, 7 horas da manhã daqueles domingos frios e quentes enquanto fico me perguntando se foi à toa que esperei ouvir a chave girar na porta com dificuldade até aquela hora.
É até engraçado pensar nas nossas brigas agora que em vez de matá-lo, eu sentia que poderia morrer por ele. De todas, a vez em que eu o tranquei na cozinha é a que mais me causa remorso. Foi no dia em que aprendi a trancar portas. Ele estava lá dentro quando eu aprendi, e ficou lá até eu lembrar que tinha aprendido. Encontrei-o dormindo sobre a mesa quando percebi que o havia deixado lá. Eu nunca planejei fazer isso. Foi sem querer. Meus pais jamais souberam.
De todas as brigas, as que mais me doem são aquelas em que bradei que preferia ser filha única. Isso nunca foi verdade. Às vezes eu me pergunto se ele pensa isso e espero que ele nem mesmo se lembre.
Dos meus amigos e companheiros, ele sempre foi o mais leal. E no dia em que eu mais precisei, foi dele o abraço mais gostoso que ganhei. Um dos poucos que tive coragem de pedir ao longo da vida.
E é pensar em perder isso tudo para todas aquelas coisas, que eu mesma já enfrentei e às quais sobrevivi, que me corrói a alma e me tira o sono. É por isso que eu gosto de ouvir a chave girar na porta. Pra ter no dia seguinte a chance de pedir aquele abraço que eu sempre quero, mas nunca dou.
"Que os filhos únicos são seres infelizes"
Cazuza- Filho Único
Voltou à casa dele àquela tarde com a esperança de que tudo não tivesse passado de um pesadelo. Não soubera, jamais, como se comportar de maneira adequada depois do fim daquela relação.
"... Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho..."
Somente Elis parecia entendê-la. Sozinha dentro do carro, sentia um alívio em escutar alguém que sentia a mesma coisa que ela. Nem que fosse somente uma interpretação. Enquanto ouvia, pensou no rumo que as coisas tomaram depois daquela tarde em que ele destruíra os planos da vida dela com poucas palavras.
"...Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço..."
Deixou o carro em uma vaga estreita. Olhou, viu que estava torto, mas não voltou. "O próximo que for sair, que se dane", pensou.
Caminhou pelo quarteirão até chegar à casa amarela. Em frente àquele portão ele a havia beijado muitas vezes. Ela podia recordar agora cada uma das vezes em que a boca dele encontrara a sua.
Respirou fundo, exitou para tocar a campainha, mas o fez rapidamente.
Ele abriu a porta de bermuda, apenas. Atrás dele, uma mulher, também em trajes de dormir.
Ninguém, jamais será capaz de descrever a dor que ela sentira naquele momento. Matá-la. Era esse o instinto que a dominava agora.
Em vez disso, pediu que ele pegasse aquele livro que ela havia esquecido na estante da sala.
Minutos depois, com o livro nas mãos, virou as costas e caminhou chorando até o carro.
"... Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu..."
O rádio parecia entendê-la como nunca. Era o seu melhor amante agora.