Luiza Silvestrini

"Às vezes eu amo
E construo castelos
Às vezes eu amo tanto
Que tiro férias
E embarco num tour pro inferno"
Medieval II - Cazuza
 
 
 
 

Felisbina e Felisberto

Eu o escuto chegar em casa às 5, 6, 7 horas da manhã daqueles domingos frios e quentes enquanto fico me perguntando se foi à toa que esperei ouvir a chave girar na porta com dificuldade até aquela hora.

É até engraçado pensar nas nossas brigas agora que em vez de matá-lo, eu sentia que poderia morrer por ele. De todas, a vez em que eu o tranquei na cozinha é a que mais me causa remorso. Foi no dia em que aprendi a trancar portas. Ele estava lá dentro quando eu aprendi, e ficou lá até eu lembrar que tinha aprendido. Encontrei-o dormindo sobre a mesa quando percebi que o havia deixado lá. Eu nunca planejei fazer isso. Foi sem querer. Meus pais jamais souberam.

De todas as brigas, as que mais me doem são aquelas em que bradei que preferia ser filha única. Isso nunca foi verdade. Às vezes eu me pergunto se ele pensa isso e espero que ele nem mesmo se lembre.

Dos meus amigos e companheiros, ele sempre foi o mais leal. E no dia em que eu mais precisei, foi dele o abraço mais gostoso que ganhei. Um dos poucos que tive coragem de pedir ao longo da vida.

E é pensar em perder isso tudo para todas aquelas coisas, que eu mesma já enfrentei e às quais sobrevivi, que me corrói a alma e me tira o sono. É por isso que eu gosto de ouvir a chave girar na porta. Pra ter no dia seguinte a chance de pedir aquele abraço que eu sempre quero, mas nunca dou.

"Que os filhos únicos são seres infelizes"
Cazuza- Filho Único


Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 11h57 [ ] [ espalhe!!! ]



Fere à faca o orgulho

Voltou à casa dele àquela tarde com a esperança de que tudo não tivesse passado de um pesadelo. Não soubera, jamais, como se comportar de maneira adequada depois do fim daquela relação.
 
"... Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho..."
 
Somente Elis parecia entendê-la. Sozinha dentro do carro, sentia um alívio em escutar alguém que sentia a mesma coisa que ela. Nem que fosse somente uma interpretação. Enquanto ouvia, pensou no rumo que as coisas tomaram depois daquela tarde em que ele destruíra os planos da vida dela com poucas palavras.
 
"...Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço..."

 
Deixou o carro em uma vaga estreita. Olhou, viu que estava torto, mas não voltou. "O próximo que for sair, que se dane", pensou.
 
Caminhou pelo quarteirão até chegar à casa amarela. Em frente àquele portão ele a havia beijado muitas vezes. Ela podia recordar agora cada uma das vezes em que a boca dele encontrara a sua.
 
Respirou fundo, exitou para tocar a campainha, mas o fez rapidamente.
 
Ele abriu a porta de bermuda, apenas. Atrás dele, uma mulher, também em trajes de dormir.

Ninguém, jamais será capaz de descrever a dor que ela sentira naquele momento. Matá-la. Era esse o instinto que a dominava agora.

Em vez disso, pediu que ele pegasse aquele livro que ela havia esquecido na estante da sala.

Minutos depois, com o livro nas mãos, virou as costas e caminhou chorando até o carro.

"... Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu..."

O rádio parecia entendê-la como nunca. Era o seu melhor amante agora.


Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 16h39 [ ] [ espalhe!!! ]



Sobre a "Flor da Idade"

Ela tinha 15, ele 21.
Ela esperava um príncipe.
Ele, só mais uma mulher.
 
Mas ela era uma menina.
Mas ele declamava Vinícius
Mas ela sonhava namorar
Mas ele conhecia Chico
 
Então ela se apaixonou
Então ele se interessou
Então ela se entregou
Então ele só aproveitou
 
Daí ele não ligou
Daí ela chorou
Daí ele não quis saber
Daí ela soube demais
 
Foi quando ela virou mulher
Foi quando ele continuou menino
Foi quando ela deu no pé
 
Hoje ele ainda procura mais uma
Hoje ela sabe que é única
Hoje ele procura por ela
Hoje ela é muita mulher pra pouco menino.
Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 14h18 [ ] [ espalhe!!! ]



Crítica ao Bom Senso

Sempre ouvi as pessoas dizerem que Paulo Coelho era um escritor ruim. Lembro de ter perguntado sobre ele uma vez a uma professora de literatura na sétima série. Ela me disse: “São histórias legais, mas ele escreve bem mal e não aceita revisores”.

Dia desses ouvi uma amiga dizer que havia lido e gostado de “Veronika decide morrer”. Decidi ler e saber qual era a do tal Paulo Coelho. Fui atrás do livro. Fala sobre uma moça que tenta suicídio e vai parar em uma clínica psiquiátrica chama Vilete.

Em uma determinada parte do livro, um médico tenta explicar à Veronika o que é um louco. O exemplo que ele dá é o de uma gravata. Um louco diria que uma gravata é um pano colorido ridículo feito de um tecido fino que os homens usam no pescoço e que os faz sentir sufocados e com calor durante o dia inteiro. Alguém lúcido, dotado do tal “bom senso” diria que é uma peça chique do vestuário masculino, indispensável a um bom guarda-roupa.

O louco era aquele que dava uma resposta diferente da considerada padrão para a sociedade em que estava inserido. Em resumo, se alguém sai do padrão, esse alguém é louco. Não tem bom senso, por mais que tenha razão.

Todos nós nos submetemos a aquilo que se chama Bom Senso. Porque se não o fizermos, não teremos força o suficiente pra agüentar o volume de críticas. Feliz de quem consegue fazer isso.

Hoje podemos considerar que bom senso é usar um scarpin apertado durante o dia todo. O bico fino machuca muito e o salto aumenta o cansaço gerado num dia de trabalho. Mesmo assim, se a mulher tiver bom senso vai fazer cara de quem não sente dor e continuar a caminhar com classe e elegância. Bom Senso é sentir dor fingindo que não sente.

Bom Senso é não sair de casa antes de ter certeza que a bolsa combina com o sapato e o cinto e que a maquiagem está no tom correto da pele.

Bom Senso é achar graça em quem parece não tê-lo. Bom Senso é pensar que a vida é engraçada por ser assim. E também é achar que Paulo Coelho não tem nada de bom sem lê-lo antes.

Viva o meu Bom Senso! Mas eu só tenho um pouco.
Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 18h52 [ ] [ espalhe!!! ]



Porque deveríamos ter duas bocas...

Foi de tanto dizerem que ela era bonita...
... que ela passou a se mutilar.

Foi de tanto dizerem que o mundo era cor-de-rosa...
... que agora ela o enxergava em preto.

Foi de tanto dizerem a ela que Deus existe...
... que ela passou a adorar seus demônios.

Foi te tanto dizerem que o amor era importante...
... que ela se prostituiu.

Foi de tanto dizerem que ela precisava ser séria...
... que ela resolveu fumar o primeiro baseado.

Foi de tanto dizerem que ela era brilhante...
... que ela emburreceu.

Foi de tanto ouvir que era arrogante...
... que ela se jogou na sarjeta.

Foi de tanto ouvir o que os outros diziam...
... que ela morreu engasgada com as próprias palavras.


Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 15h48 [ ] [ espalhe!!! ]




[ No fundo do baú... ]